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Há 30 anos a “zelar”, ou a missão altruísta de José Carvalho no Sandinenses

Pedro C. Esteves
Desporto \ sexta-feira, agosto 20, 2021
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Pelas macas e enfermaria do clube passaram centenas de pequenos futebolistas. Estava lá o "Carvalho", homem da "casa" (que partilha com a família do GDRC Os Sandinenses). "Não me imagino fora disto”.

“É muito simples contar a minha história”, atesta, com prontidão amistosa e voz ternurenta, José Carvalho. Atalha logo pela proveniência: Trás-os-Montes. E encarreira para a profissão: técnico de farmácia. Mas o que faz um farmacêutico que nasceu para lá do Marão enredado no recinto e corredores do Complexo Desportivo D. Maria Teresa, em São Martinho de Sande? Resposta curta: “Muita coisa”. Carvalho – como é conhecido “em todo o mundo” – resume: “Para além de ser enfermeiro, massagista e fisioterapeuta, faço jogos, sigo as camadas jovens, ajudo à realização dos exames médicos. A minha missão aqui é ajudar, zelar”.

E zela há 30 anos pelo recinto do GDRC Os Sandinenses. Mora em Guimarães "desde sempre" e faz regularmente o trajeto de 12 quilómetros que separa a cidade da freguesia a norte do concelho. Conjugava o mundo dos fármacos com o das chuteiras e relvados ainda antes de se “fixar” em São Martinho de Sande. Deixou trabalho no Selho, Vitória Sport Clube – inclusive na campanha histórica no campeonato nacional de juniores – e UD Torcatense. Experiências, memórias, trabalho, dedicação de quem, de forma abnegada, se habituou a “zelar” – Carvalho repete a palavra com frequência quando fala “de casa”. Que é, para ele, a “primeira”. “Na minha sou eu e a minha mulher e aqui sou eu e 150. Esta casa é cuidada por mim ainda mais do que a minha”, brinca. 

 

Fotografia: © Bruno Ferreira/Jornal de Guimarães

 

A lida começa ao final da tarde e prolonga-se. Por vezes, mais de cinco horas dedicadas a um clube que reconhece como poucos: há registos de todos os jogadores na sala de “onde sai o conhecimento” – a enfermaria –, rostos conhecidos em todas as fotografias que pincelam as galerias caiadas do clube. A tarimba é fruto do tempo. “Eu era sempre a pessoa ativa aqui todos os dias. A partir das 17h30, 18h00, estava aqui. Eu sou um indivíduo disponível a 100% por cento desde 2000, altura em que me reformei do hospital. Há 21 anos sou livre de manhã, à tarde, ao meio dia, à noite, para o Sandinenses”, enquadra José. “É a minha missão: cuidar de tudo neste clube”.

 

Tenha cautela, Carvalho”

Antes dos clubes e do mundo das pomadas e entorses, a formação. Com o curso de enfermagem e "ligado à saúde" foi também aluno de Novais de Carvalho no curso de massagista que tirou em Braga.

Etapas passadas e carimbadas com orgulho. Agora, quando serpenteia e repisa caminhos decalcados muitas vezes, há um reconhecimento tácito de que a missão está a chegar ao fim. “Já são muitos anos”, reitera. E “já não há pedal” para andar com o plantel sénior. Uma pneumonia fez soar os alarmes e o médico pediu cautela: “Carvalho, pode fazer tudo, mas correr nos seniores, esqueça”. Mensagem acatada. “Acompanhei o fisioterapeuta novo, para o ir integrando e prepará-lo para quando for a doer. Aí tenho de me ficar por aqui”.

As reminiscências de Carvalho são sempre pontuadas com um sorriso. Esboça um mais perene quando a conversa desagua nos “miúdos”. Com 30 anos de casa, passaram centenas pelas macas e enfermaria – “tenho uma relação espetacular com todos eles”, salienta. “Dos mais pequeninos, não há nenhum menino que tenha medo de vir ao Carvalho. Não têm", assegura. E atesta: "Se vocês chegar a algum lado e perguntar: ‘Onde jogas? No Sandinenses? Então conheces o Carvalho’. É logo a primeira coisa”.

Passaram muitos pelas macas do "Carvalho” – passarão mais alguns. E enquanto o zelador conseguir, há de arranjar soluções para entorses, mialgias ou traumatismos e outras maleitas. "Não me imagino fora disto”, frisa. E quando não der mesmo mais, vai “zelar” para mais perto de casa. “Eu se sair daqui vou acabar no Selho”. Palavra de Carvalho.