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Mário Miranda, da bicicleta de 700 escudos à busca de talento vimaranense

Pedro C. Esteves
Ciclismo \ quinta-feira, agosto 18, 2022
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Natural de Barcelos, o ex-ciclista e ex-diretor está intrinsecamente ligado a nomes do ciclismo de Guimarães como José Mendes, Manuel Abreu ou Joaquim Sampaio.

Quando Mário Miranda fazia, aos domingos, o trajeto entre Barcelos e Nine para ver a serração onde o pai era guarda-noturno não raras vezes encontrava “um moço” a passear uma bicicleta Martano. “Foi aí que começou”, lembra, sem esconder o sorriso de quem sabe que tem uma história feliz para contar. O rapaz da Martano ia para a zona namorar e Mário “encostava-se à bicicleta” à espera de ouvir um: “Se quiseres, podes dar uma volta”. A oportunidade acabou mesmo por surgiu. Pegava nela ali e galgava até a Viana do Castelo ou ao Porto. Teria 14 anos, estima.

“Comecei a andar na bicicleta de um senhor de uma mercearia que eu ajudava. Ela não tinha travões, mas andava muito nela. E depois trabalhava na lavoura, tinha força”, explica, para ajudar a explicar como fazia aquelas distâncias tão novo. Mário Miranda está perto de fazer 80 anos, tem quase 30 edições da Volta a Portugal feitas – umas como ciclista, outras como diretor – e a primeira bicicleta que lhe chegou às mãos foi mesmo a pasteleira da Martano. Comprou-a “ao moço” por 700 escudos ganhos pelo tio a vender rifas no fim do terço da missa e levou-a ao Circuito de Ermesinde – na altura, já integrava o lote de juniores do Futebol Clube do Porto. “Devia ter uns 17 anos e devíamos ser uns oito, um deles era o Joaquim Leão, que ganharia a Volta a Portugal em 1964. Apareci com a minha pasteleira, fiz 2.º em Ermesinde e a partir daí comecei a correr e a ganhar corridas em juniores”, relata.

Uma chegada noturna

A epopeia de Mário na Volta a Portugal começa em 1962. Torna-se um gregário de luxo e peça importante na vitória de José Pacheco: “Eu ia à água, não lhe faltava um bidãozinho e estava nas subidas, andava quanto queria nesse ano”. Seguem-se momentos felizes, desilusões, e, pelo meio, a tropa. Guimarães ainda não estava no radar do ciclista que não esquece a edição de 1965.

Assenta praça em setembro de 1964 e muda de equipa no final desse ano. Acompanha Carlos Carvalho – amigo que conhece no FC Porto e vencedor de uma Grandíssima – para os vianenses da CEDEMI. Já mobilizado, tem pouco contacto com a bicicleta antes da Volta e nem na apresentação consegue marcar presença: chega do regimento num comboio e aparece na Aldeia da Volta – local onde se concentrava a caravana com as equipas e logística – a poucas horas da primeira etapa. “Nunca mais me esqueço: era Lisboa – Leiria. Aquilo andou muito, o que eu sofri. Tinha as pernas inchadas, comecei a descolar nas Caldas da Rainha e acabei por chegar fora do controlo por um minuto”, recorda.

É o que quer que não aconteça a José Mendes, o único ciclista vimaranense na 83.ª edição da Volta a Portugal. Conhece-o bem – “Fui eu que o fiz”, resume –, tal como conheceu Manuel Abreu ou Joaquim Sampaio. O trabalho com jovens vimaranenses em idade de cadetes acontece naturalmente. A carreira longa ligada às duas rodas acaba por trazer Mário Miranda para o Vale do Selho na altura em que a equipa da Coelima se prepara para entrar no pelotão nacional e disputar a prova-rainha do ciclismo português.

“Vim para aqui em 1969 e fiz a Volta em 70, 71, 72. Em 1972 fiz mesmo três segundos lugares. Foi o meu melhor ano e, com o dinheiro dos prémios, fiz uma casinha aqui e casei. O meu plano era, terminada a carreira, continuar como motorista na Coelima”, explica. Mas “a paixão” não deixou. Aconteceu que a equipa da fábrica tinha ficado sem diretor no início de 73 e era preciso alguém para assumir o comando. Insistiram, insistiram e tanto insistiram…:“E lá fui eu, mas, filha da mãe, andei uns bons dias a cismar”.

O “casamento” só acaba dez anos mais tarde. A Coelima começa a perder fôlego e os cortes chegam ao ciclismo. Fica por Guimarães, e segue a roda de projetos como a Vigaminho – Maria José Abreu, Vitória SC e Garcia Joelheiro. Depois, começa a treinar os mais novos. O cenário, outrora de algum fulgor, já não existe. As equipas que pedalavam por Portugal com as cores de Guimarães foram perecendo e não existe uma escola como a de Roriz, por exemplo, para jovens atletas vimaranenses. “A vida está muito mais difícil e as empresas já não apoiam com tanta facilidade o aparecimento de equipas”, explica Mário Miranda. É por isso que depois de passar a idade de cadetes, o ex-ciclista tinha de reencaminhar o talento para formações de fora do concelho.

Bater na trave

Mário Miranda conheceu várias realidades distintas, em várias equipas distintas. Há, no entanto, uma “cabeçada na trave” que não esquece, uma passagem que não aconteceu e “deixou muita pena”. “Em 1984 telefonou-me o diretor do Sporting CP, o Moreira Lopes, ele sabia que a Coelima tinha acabado, que eu estava parado. Tinha havido um problema na equipa, porque o Marco Chagas e os outros ciclistas se tinham chateado com o Melo Graça e ele acabou por sair”, começa por dizer.

Ora, a proposta era simples: orientar a equipa entre agosto e outubro. Mário teria então uma chance única de conhecer as estradas da Volta à França. Tentou negociar, mas correu mal. “É o maior desgosto que tenho, foi a grande machadada que dei na minha carreira”.

A carreira acabou, mas a bicicleta nunca deixou de aparecer. Fazia passeios de cicloturismo e chegou a percorrer o Minho (e não só). Será sempre o rapaz que se encostava à bicicleta em Nine e que ouvia, quando regressava à base: “Caraças, aquele Miranda anda como tudo, dava ciclista”. E deu.