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O ‘mister’ disse ao intervalo que “iríamos ganhar”. “E nós acreditámos”

Tiago Mendes Dias
Futebol \ quinta-feira, maio 26, 2022
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Rui Vitória, Douglas, Leonel Olímpio e Luís Esteves reviveram as emoções de 26 de maio de 2013, dia que marca a única Taça de Portugal conquistada pelo Vitória SC em quase 100 anos de história.

O resultado era de 1-0 ao intervalo; o golo acidental do benfiquista Gaitán, num ressalto feliz a uma bola de Kanú, assim o ditava na tarde de 26 de maio de 2013, banhada pelo sol em pleno Jamor. Mal a equipa de camisola branca e calção preto recolheu ao balneário, Rui Vitória disse que “não tinha a mínima ideia” de que o Vitória SC iria vencer a Taça de Portugal pela primeira vez.

O então treinador de guarda-redes, Luís Esteves, e um dos capitães daquela equipa, Leonel Olímpio, assim o testemunharam nesta noite de quinta-feira, quando se assinalam os nove anos da conquista da prova rainha: “Quando voltámos do intervalo para o balneário, ele disse que iríamos ganhar o jogo. Se aguentássemos assim até aos 70 minutos, iríamos ganhar. E nós acreditámos. O Crivellaro substituiu-me e fez logo o passe para golo. Saí aos 68 minutos e acho que tive ali os 20 minutos mais difíceis da minha vida”, disse o antigo médio, na tertúlia alusiva à conquista da Taça, integrada nas comemorações do centenário do Vitória.

De regresso a Guimarães, após passagens pelo Benfica, pelo Al Nassr (Arábia Saudita) e pelo Spartak de Moscovo, o treinador que levou o emblema preto e branco ao inédito cetro assume que aquela foi uma “estratégia psicológica” integrada “num plano de pensamento” para a final com “quatro hipóteses sobre o que poderia acontecer”. Apesar do golo sofrido “num ressalto”, a equipa fez, na primeira parte, tudo o que “estava previsto fazer”, “dentro do processo”, pelo que só restava ultrapassar o sofrimento e “enfrentar o que estava por vir”. “Como ninguém ganha nada sem sofrimento, qual o problema de sofrer um golo? Tínhamos de enfrentar a situação e fazer-nos à vida”, notou.

Quando recua no tempo, o treinador evoca, com clareza, os acampamentos de sócios junto ao Estádio D. Afonso Henriques para se garantirem os bilhetes, os constantes apelos à conquista da Taça – “domingo temos de ganhar”, fosse uma senhora de 80 anos ou uma criança de cinco -, o trabalho semanal de focar o grupo – “este é o jogo” -, a chegada ao Jamor e a primeira subida ao relvado, com os jogadores ainda de fato de treino.

Nessa hora, ainda bem antes do jogo, já muitos dos lugares reservados aos vitorianos estavam ocupados. E o apoio mexeu com os jogadores: “Quando começo a recebê-los, as emoções estavam ao rubro. Tivemos de acalmar os jogadores, para os preparar para o jogo”, assinala.

Imbuído da “força de uma cidade”, aquele Vitória de 2012/13 virou a desvantagem com golos de Soudani, aos 79 minutos, e de Ricardo, aos 81, inscrevendo o seu nome na eternidade. Com “mérito”, na opinião de Rui Vitória. “Ganhámos com aqueles rapazes, numa situação difícil, com forças desiguais e salários em atraso. Estávamos preparados para tudo. Mais ou menos bem jogado, o trabalho foi meritório, por aquilo que os jogadores foram capazes de executar”, disse, a propósito daquele que considera o título mais especial da carreira, a par do primeiro título de campeão nacional, “difícil”, pelo Benfica, em 2015/16.

 

"Ninguém ganha nada sem sofrimento" - Rui Vitória, a propósito da confiança no intervalo da final

"Ninguém ganha nada sem sofrimento" - Rui Vitória, a propósito da confiança no intervalo da final

 

“A ficha de ganhar a Taça só caiu dois ou três dias depois”

Douglas e Leonel Olímpio foram dois dos três capitães do Vitória que triunfou na prova rainha, a par de Alex, o homem a quem coube a honra de erguer o troféu. O guarda-redes admite que os capitães foram “importantes” no contacto com atletas sobretudo jovens, mas “o grupo era espetacular”.

Com dificuldades financeiras e saída de jogadores a meio, ficaram “aqueles que tinham de ficar” para fazerem história, inclusive o próprio guardião, à época com 30 anos: foi decisivo nos desempates por grandes penalidades com Vitória de Setúbal, na quarta eliminatória, e com Marítimo, nos oitavos de final, bem como no dérbi com o Sporting de Braga, decidido no prolongamento.

Confrontado com a importância das suas defesas, Douglas brincou que ainda poderia ter defendido mais, caso Luís Esteves não tivesse falhado a viagem à Madeira. “Se tivesse conversado com ele, poderia ter defendido mais. Nós estudamos as probabilidades dos remates dos adversários, mas, na hora, é tudo muito rápido e temos de decidir”, lembrou.

Na sequência das declarações do antigo guardião, Luís Esteves enalteceu o “exemplo de profissionalismo” de Douglas, realçando ainda que “a preparação para aquele dia” foi “algo de especial”, algo corroborado por Leonel Olímpio. “Aquele jogo vai ficar marcado, porque passámos por muitas dificuldades. Havia desconfiança, dificuldades financeiras. As minhas lágrimas foram mais um momento de desabafo, de dever cumprido, porque foi um ano difícil. Desejo que o Vitória nunca mais passe por dificuldades daquelas”, lembra.

Grato pela “confiança” e pela compreensão que Guimarães mostrou nessa década, o brasileiro radicado na cidade lembrou ainda o percurso no autocarro descoberto das imediações do Guimarães Shopping ao Toural, com milhares de pessoas a abraçarem o cortejo dos vencedores. “A ficha de ganhar a Taça de Portugal só caiu dois ou três depois. Parecia que até tínhamos todos os salários em dia. Quando passo no Toural, vejo sempre o filme da festa”, confessa.