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A retoma e os apoios ao desporto

José Luís Ribeiro
\ quarta-feira, março 31, 2021
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O problema do regresso dos jovens ao desporto não estará nos jovens. Estará na confiança que os encarregados de educação terão que sentir e na capacidade das Famílias para suportar os encargos.

Num momento especialmente difícil e complexo para todo o mundo, o apoio ao sector do desporto é crucial para a reativação ou manutenção de projetos associativos cuja importância é inegável, mas poucas vezes socialmente reconhecido.

Repensar os critérios de atribuição de apoios às coletividades desportivas, valorizar, apoiar e incentivar os dirigentes desportivos voluntários e criar mecanismo que, para além dos apoios monetários, sejam efetivas ferramentas que auxiliem a gestão quotidiana das associações, poderão ser caminhos que urge percorrer.

Não tenho dúvidas que os jovens que interromperam a prática desportiva federada querem regressar o mais rápido possível. Considero, aliás, falacioso o critério de avaliar o impacto da pandemia pela comparação do número de atletas federados. Basta ter presente, por exemplo, a diversidade e as características das modalidades desportivas (individuais, coletivas, etc), que nem todas as modalidades começam e terminam a época no mesmo período do ano (nalgumas a época desportiva coincide com o ano civil) e que alguns clubes, honra lhes seja feita, tiveram a capacidade e o engenho de manter os seus projetos desportivos em funcionamento.

Pior do que alicerçar os argumentos do impacto da pandemia no desporto na quebra do número de atletas - que deve permanecer meramente como um indicador - seria projetar apoios à retoma em função disso. Seria injusto privilegiar nos apoios um clube que se abateu com os efeitos da pandemia - diminuindo o número de atletas - em detrimento de outros que, apesar da pandemia, resistiram, não deixarem de lutar e foram capazes de manter a dinâmica da coletividade.

O problema do regresso dos jovens ao desporto não estará, como referi, nos jovens. Estará na confiança que os encarregados de educação terão que sentir para o regresso em segurança e na capacidade que as Famílias terão para suportar os encargos da prática desportiva e que, muitas vezes, têm um peso expressivo no orçamento familiar.

Alguns clubes e coletividades, infelizmente, sobrecarregam as Famílias com custos e responsabilidades desproporcionados, “levando-as” a suportar, além de mensalidades, equipamentos, transportes, inscrições e outros custos, alguns deles, caprichosos.

Se à imputação às Famílias da maior parte dos encargos juntarmos os apoios recebidos da autarquia, de patrocinadores e de outras fontes de receita, com alguma facilidade se concluirá que esses clubes transformaram a sua atividade em algo bastante lucrativo e até financiador de outros projetos da coletividade.

Daí que a política autárquica de atribuição de apoios ao desporto também deva considerar estas realidades, ou seja, diferenciar, claramente, o apoio entre os clubes que não cobram pela prática desportiva, que cobram pouco, que cobram valores razoáveis ou aqueles que sobrecarregam as Famílias. Fatores a começar a ponderar seriam também os custos reais de funcionamento das coletividades (considerando, por exemplo, a existência e os custos de manutenção de instalações próprias) e a especificidade e os encargos associados à prática de cada uma das modalidades. Deveria, igualmente, ser ponderada a exigência, ou não, de pagamento de inscrição e a existência de receitas de bilheteira no processo de definição de apoios aos eventos desportivos.

Para auxiliar os clubes e coletividades a enfrentarem os desafios do futuro, a par da revisão dos critérios de atribuição de apoios financeiros, importaria criar outros mecanismos de apoio ao associativismo que, na sua generalidade, é movido pela paixão, pela força e pelo trabalho, tantas vezes invisível e socialmente desprezado, dos seus dirigentes voluntários.

Marcante seria a criação de um Gabinete Autárquico de Apoio ao Associativismo Desportivo que fosse capaz de contribuir para a melhoria do desempenho e da sustentabilidade das associações desportivas, disponibilizando ferramentas, recursos, apoio técnico e consultadoria em áreas como, por exemplo, a financeira, fiscalidade, informática, comunicação, marketing, formação, instalações, licenciamentos, candidaturas e muitas outras nas quais as coletividades navegam com dificuldade.