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COVID-19 e sedentarismo: vamos mudar de atitude?

Paula R. Nogueira
\ quarta-feira, março 31, 2021
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A prescrição de exercício físico tem de ser assumida como prioridade pelo sistema.

Até fevereiro de 2020 a inatividade física estava identificada como “a pandemia do século XXI”, mas a COVID-19 assumiu, por enquanto, esse protagonismo.

As primeiras estratégias de combate organizado ao sedentarismo e à inatividade física estavam ainda a desenvolver-se quando a COVID-19 obrigou a um recuo. Nos próximos anos, para além de matérias críticas como o impacto económico e social da pandemia, muito se discutirá, certamente, sobre os efeitos de longo prazo desta pandemia na saúde física e mental da Humanidade.

Tudo aponta para uma inflexão nas trajetórias de combate à inatividade física e ao sedentarismo. A própria OMS (Organização Mundial de Saúde) adverte para esse perigo, que podemos encarar como uma tendência real. Os dados oficiais indicam que 31% da população mundial com menos de 15 anos é inativa e pelo menos 3,2 milhões de mortes anuais são atribuídas a estilos de vida sedentários.

Na mesma linha, o Eurobarómetro 472, publicado em março de 2018, trouxe notícias igualmente preocupantes. Metade dos europeus (somos 446 milhões em 27 países) nunca praticam exercício ou desporto e o número de inativos aumentou (de 42% para 46%) desde 2009. O mesmo relatório refere que os homens são mais ativos e predispostos para a prática desportiva do que as mulheres, e as mulheres mais jovens (entre os 15 e os 40 anos) são as menos ativas. Feitas as contas, Portugal está entre os três piores da Europa com 68% dos portugueses inativos (nunca praticam atividade física ou desporto). Os nossos parceiros de desgraça são os búlgaros e os gregos.

É de admitir que a realidade atual seja ainda pior.

A prosseguir assim esta dinâmica de sedentarismo, e pela primeira vez na história da Humanidade, a esperança média de vida das crianças que hoje têm até 10 anos poderá ser 5 anos inferior à dos seus pais. Esta projeção foi revelada por um estudo intitulado “Designed to Move”, realizado por um consórcio que juntou a marca desportiva Nike ao American College of Sports Medicine e ao International Council of Science & Physical Education.

Entre outras evidências, o estudo destaca o quanto a sociedade se tem esforçado para excluir o exercício e a atividade física das suas rotinas. Deixamos de ir a pé para a escola ou para o trabalho, não subimos escadas, preferimos conduzir a caminhar ou usar a bicicleta para nos deslocarmos. Não admira, por isso, que hoje se atribuam mais mortes associadas ao sedentarismo do que ao tabagismo. E ainda estamos a contar mortes atribuídas à COVID-19.

Com boa parte da Humanidade confinada e limitada na sua atividade diária, as oportunidades para se estar fisicamente ativo decresceram com a pandemia da COVID-19. Por motivos (válidos) de saúde pública, encerraram-se as instalações desportivas, os parques, os centros de fitness, os clubes, e, consequentemente, a inatividade física, o sedentarismo e o isolamento ganharam (mais) terreno. Também é verdade que muitos de nós (re)descobriram o ar livre, a caminhada, a corrida e a bicicleta. Outros encontraram na jardinagem, na dança ou nos animais de estimação uma boa razão para se manterem ativos e equilibrados.

Usamos medidas drásticas, como o confinamento, para travar a progressão da COVID-19 e focamos a nossa esperança num processo de vacinação generalizada. Será que a interseção – cada vez mais evidente – entre o risco de contrair infeções graves e sedentarismo será suficiente para motivar em nós uma mudança de atitude?

A reabilitação coletiva implicará uma nova estratégia de saúde pública. A prescrição de exercício físico tem de ser assumida como prioridade pelo sistema. Dos médicos de família aos clubes desportivos todos poderão desempenhar um papel muito importante na captação de adeptos para uma vida mais ativa e saudável.