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Da ‘sanéita’ para a ETAR

Carlos Rui Abreu
\ sexta-feira, março 26, 2021
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Um dos exemplos mais flagrantes dessa falta de ética e dos princípios básicos de urbanidade foi protagonizado pelo ex-árbitro Jorge Coroado.

Há cerca de 15 anos estava a relatar um jogo de futebol entre o Marítimo e o Vitória Sport Clube, no antigo Estádio dos Barreiros, e tinha ao meu lado um ‘companheiro de ocasião’. Um madeirense, de provecta idade, que decidiu assistir ao jogo ali a dois ou três metros de mim. Nunca me dirigiu qualquer palavra nem mostrou para comigo nenhum sinal de animosidade. Percebi que para esse adepto, o facto de eu estar ali era indiferente. Para mim não foi.

A cada decisão do árbitro o meu colega de bancada soltava sempre a mesma frase: “Sanéita! És uma sanéita!”. Aquela voz forte ecoava pela bancada. Assim mesmo, sem tirar nem pôr.

Confesso que nas primeiras vezes não percebi o alcance da expressão. Estava concentrado no meu trabalho mas como ia ficando cada vez mais intrigado, virei a atenção para mais um desabafo do maritimista. ´Sanéita’ era, afinal, sanita. Era isso que, com um carregado sotaque da ilha, o adepto chamava insistentemente ao árbitro. Um insulto, uma ofensa, que, naquele contexto, até tinha a sua dose de piada. Saída da voz daquele homem, daquela imagem que ainda guardo na memória, com o cachecol do Marítimo gasto pelas tardes e noites ali passadas, nos Barreiros.

Perguntar-se-á o leitor porque razão recordo aqui este episódio.

A explicação é simples: este adepto, além da sua própria responsabilidade, não tem mais nenhuma naquele lugar da bancada. É ali que desabafa, que exterioriza as suas emoções e, se não passar o limite do razoável, ninguém o pode condenar por isso.

Mas no mundo da comunicação desportiva, onde me movo, a responsabilidade não é a do adepto comum. Particularmente no futebol o ambiente está praticamente irrespirável. O acesso fácil e livre às redes sociais veio potenciar o insulto gratuito, a suspeição sistemática, a agressão verbal a quem não comunga das nossas opiniões. Mesmo que estas mudem, jornada a jornada, na medida em que os erros ora beneficiem, ora prejudiquem os clubes pelos quais simpatizamos.

É neste particular que a comunicação social tem uma responsabilidade redobrada para não fomentar mais ódios e atear mais fogueira que, aos poucos, vão matando a paixão pelo jogo, aquele que de facto se joga pelos artistas da bola dentro do rectângulo mágico.

Dos franco-atiradores dos programas de TV que passam horas a mostrar repetições e a fazer casos e alertas estapafúrdios, até às páginas dos jornais onde o denominador comum é sempre a arbitragem.

Um dos exemplos mais flagrantes dessa falta de ética e dos princípios básicos de urbanidade foi protagonizado pelo ex-árbitro Jorge Coroado. A propósito do erro do árbitro Luís Godinho no jogo da Taça de Portugal entre o Braga e o FC Porto, Coroado escreveu, sobre Godinho, nas páginas d’O Jogo: “Para este o sítio adequado é a ETAR. De preferência, na foz de um rio”. Alguém que como Coroado andou nos relvados de apito na boca e, como todos os outros cometeu erros, não pode ter este tipo de comentários. Gente como esta, intolerante, e com crítica realizada nestes moldes não pode ter lugar no espaço mediático. Os próprios órgãos de comunicação social deviam meditar sobre a presença de gente que escreve assim de um agente desportivo. Apontar o erro, sim! Desta forma, não!

No fundo, a ‘sanéita’ do adepto madeirense e a ETAR fazem parte do mesmo percurso por onde passa algo em que não queremos que se transforme o futebol português.          

Até breve