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É preciso um curso para se ouvir falar de bola?

Carlos Rui Abreu
\ sexta-feira, outubro 29, 2021
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Comentadores e analistas têm de saber abandonar uma certa forma 'elitista' de ver o jogo e descer ao povo para o qual se dirigem. O segredo de bem comunicar está na simplicidade com que o fazemos.

Há mais de 30 anos, quando comecei a ir à bola, ouvia os mais idosos, que não sabiam falar inglês, a debitarem expressões nesse idioma como se o dominassem. Do back central, ao liner, passando pelos offsides e pelos corners e terminando com os penaltys. A origem britânica do jogo influenciou estes termos, como outros, que se generalizaram um pouco por todo o mundo.

Como em qualquer área de atividade, no futebol há também uma espécie de dialeto específico que, 'traduzido' à letra, não faz sentido. Senão vejamos: “A equipa que sobe no relvado” (se o campo é plano não há subidas!); “O jogador que ganha a segunda bola” (Então não há só uma bola em jogo?!). São apenas alguns exemplos de expressões que a 'malta do futebol' sabe perfeitamente o que significam mas que, descontextualizadas, não fazem sentido.

Ao longo dos anos a forma de falar de futebol e de comunicar com quem gosta do jogo foi-se alterando e passamos dos 'contra-ataques' para as 'transições ofensivas rápidas', já não se 'chuta para a frente' mas 'estica-se o jogo', entre outras inovações.

Não tendo nada contra, e até utilizo muitas destas novas expressões quando estou a falar sobre futebol, considero que comentadores e analistas têm de saber abandonar uma certa forma 'elitista' de ver o jogo e descer ao povo para o qual se dirigem.

O segredo de bem comunicar está na simplicidade com que o fazemos, no objetivo de fazer passar uma mensagem, uma ideia, ao maior número de pessoas. Tenho muitas dúvidas que alguns dos novos 'doutores' do futebol que proliferam nas nossas televisões, cheios de frases pomposas e com muitos estrangeirismos, sejam entendidos por uma boa fatia dos telespetadores, muitos deles idosos e sem grande instrução, que consomem esse tipo de programas.

Um bom comunicador no futebol não é aquele que obriga o ouvinte a consultar um dicionário ou a ir ao Google para ver o significado de um qualquer termo mas é aquele que, de forma clara e o mais simples possível, transmite o quer dizer. Não é por se destacar com palavras 'difíceis' que se é bom. É por ser direto e concreto, simples e claro. Um dia ainda vai ser preciso 'ir a Coimbra' para se perceber um jogo de futebol. Adulterando o adágio popular, concluo dizendo: para bom comunicador, meia palavra basta. O povo agradece.