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Em cada esquina um amigo

Carlos Rui Abreu
\ sexta-feira, junho 11, 2021
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Por muito paradoxal que possa parecer, o futebol ficou mais pobre na véspera do arranque de uma das suas maiores celebrações.

Foi a 24 horas de começar mais um Campeonato da Europa de seleções que partiu uma daquelas pessoas que faziam bem ao futebol e que fazem falta ao futebol.

Não tenho nenhuma selfie com o Neno. Não sei mesmo se o Neno sabia o meu nome quando nos cruzávamos nos corredores do D. Afonso Henriques. Mas, independentemente disso, o Neno tinha um sorriso do tamanho da saudade que deixa em todos que com ele se cruzaram, nem que fosse uma vez na vida.

A carreira do Neno pode ter sido feita com mais ou menos defesas, com mais ou menos títulos, vitórias, empates ou derrotas. Para mim, o que fica essencialmente desta enorme personalidade do futebol português foi o que granjeou depois de pendurar as luvas.

Conheci pessoalmente o Neno quando, tinha eu talvez uns 17 ou 18 anos, parti com um conjunto de amigos para uma candidatura à Associação de Estudantes da Escola Secundária de Fafe. Um de nós conseguiu chegar ao Neno e, feito o convite, de imediato acedeu a passar connosco uma manhã de campanha eleitoral. Lembro-me que trouxe o Alexandre, central brasileiro do Vitória, e foi uma alegria. Cantou, autografou bolas, apelou ao voto na Lista M e riu, riu muito. Fez a alegria dos alunos da escola naquela manhã. Nunca manifestou enfado, não estava lá a fazer um frete. Curtiu o momento. O que levou dali? Uma manhã passada numa escola, a rir.

Usou a notoriedade que construiu no futebol para estar sempre na linha da frente no apoio a quem mais precisava. Percorreu cidades, vilas, aldeias, pequenos bairros, para dar a mão, para ser solidário. Ele e a sua gargalhada contagiante. Quantas pessoas ajudou? Nem ele próprio saberia, não interessava. O importante era estar lá nem que fosse para cantar uma ou duas músicas e ir embora.

O Neno era, no futebol, um dos grandes. No Vitória fez de tudo um pouco, às vezes mais, outras vezes menos valorizado. Nunca perdeu a sua forma de estar, o desportivismo, a palavra amiga para os seus e para os adversários. Foi sempre um homem que abriu portas, nunca as fechou.  

Se mais Neno’s existissem no desporto em Portugal o ambiente seria melhor. Muitos falarão do legado que deixa, do muito que ainda tinha por fazer, mas a melhor forma de o lembrar é tentar seguir o seu exemplo.

O Neno tinha um amigo em cada esquina.