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Jogos Olímpicos, … (continuação)

Francisco Oliveira
\ sexta-feira, julho 23, 2021
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Os tempos em que nos situamos auguram tempestades para a prática desportiva, de um desporto humanizante e ao serviço da sã convivência entre indivíduos e povos.

A 23 de Junho de 1894, Pierre De Fredy, Barão de Coubertin, organiza em Paris o Congresso Olímpico Internacional: estão presentes 79 delegados de 13 países. O seu grande propósito é relançar na Era Moderna os Jogos Olímpicos interrompidos há mais de 1500 anos. Este desiderato opera-se em 5 de Abril de 1896 na cidade emblemática de Atenas – o renascer, qual Fénix das cinzas da história, dos Jogos Olímpicos da Era Moderna. Estes tinham fenecido em 393 D.c. às mãos do Imperador hispano-romano Teodósio. Após 293 edições dos Jogos Olímpicos da Antiguidade Clássica, com um interregno de aproximadamente 1500 anos, estão de regresso mas com as fronteiras alargadas para além da Grécia. Mas nem todas as fronteiras ainda estavam superadas: os negros estão excluídos. Há caminho ainda por fazer, e muito! Reconstrói-se, em Atenas, o Estádio Panatenaico de Olímpia, onde se inscreveram 311 atletas, sendo 230 gregos. Só na Maratona, de um simbolismo ímpar, é conquistada por um grego.   

Assim, no verão de 1896 pela primeira vez realizavam-se os Jogos Olímpicos, segundo os 4 pilares fundamentais e a profissão de fé do Barão de Coubertin, ou As Bases Filosóficas do Olimpismo Moderno – 1º “a primeira caraterística essencial dos olimpismo moderno é a de ser uma religião.”; 2º “a segunda caraterística do olimpismo é o facto de ser uma aristocracia, uma elite.”; 3º “mas ser uma elite não chega; é preciso que essa elite seja uma cavalaria.”; 4º “a ideia de trégua é também um elemento essencial do olimpismo (favorecendo a harmonia).”; e, finalmente, uma profissão de fé “inquebrantável na juventude e no futuro”. Este sentimento religioso retoma a dimensão religiosa do Olimpismo da Antiguidade, não nos deuses, mas nos valores da democracia e do internacionalismo, mas igualmente da pátria, simbolizada numa bandeira. Religião entendida como fidelidade a um ideal de libertação e de comunhão, e direcionada para uma transcendência (divina ou não). Uma aristocracia igualitária, onde os melhores corporalmente e pela vontade surgem do meio de tantos que praticam o desporto. Não é discriminar (como infelizmente ainda nesta altura se discriminavam os negros e as mulheres), mas apresentar os melhores como desafio a todos para melhorarem. Na cavalaria a fraternidade une em vínculos duradouros os cavaleiros na adversidade e na felicidade. Mesmo na violência o apelo a ser cortês. E, por último, a trégua olímpica que impõe ao indivíduo e à coletividade uma suspensão (mais que fair play), que só alguém forte e decidido terá tal vontade para propor e aceitar. No seu credo, onde os Jogos são tidos como Artes e Pensamento, nasce o filão prometedor de uma esperança projetada para toda a humanidade. Esta é uma fé inquebrantável que ficamos a dever para sempre a Coubertin, que nunca deixou de ser um homem do seu tempo. Por isso, não façamos juízos anacronistas do seu pensamento e da sua ação.    

Os tempos em que nos situamos auguram tempestades para a prática desportiva, de um desporto humanizante e ao serviço da sã convivência entre indivíduos e povos. O modelo capitalista apodera-se cada vez mais do desporto (o paradigma é o futebol), pondo em risco os valores que tornam possível viver humanamente. Que os jogos comecem…