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JO, o paradigma ocidental do desporto

Francisco Oliveira
\ segunda-feira, abril 05, 2021
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No espírito agónico da velha Hélade, já presente nos Poemas Homéricos, destaca-se a preparação física e o culto do corpo, componente essencial da cosmovisão helénica, definindo a sua paixão estética.

Antes de tudo urge interrogar: Como surgiram na antiguidade ocidental os jogos? Com que intuito? E que valores propugnavam? E é preciso responder dentro da nossa tradição filosófico-cultural, quer dizer, em Atenas, Roma, Alexandria, Jerusalém e Constantinopla… sendo europeu, de Portugal e de Guimarães, mas sem nos deixarmos encerrar em particularismos, aceitando o desafio de percorrer uma universalidade, porque, segundo Fernando Pessoa, “o povo português é, essencialmente, cosmopolita. Nunca um verdadeiro português foi português: foi sempre tudo”. Esta universalidade impregnada no nosso ser e existir (mas de todos os povos) parece-me orientar para aquele acontecimento primeiro do desporto (como fenómeno abrangente da humanidade e da cidade) e marca indelével, matriz, do conceito e valor do jogo/desporto entre nós.

No espírito agónico da velha Hélade, já presente nos Poemas Homéricos, destaca-se a preparação física e o culto do corpo, componente essencial da cosmovisão helénica, definindo a sua paixão estética e o seu espírito de competição, sobretudo entre as cidades (Polis). Os festivais desportivos Pan-helénicos (Olímpicos, Píticos, Nemeus e Ístmicos) são encontros entres os gregos das cidades-estado, que competindo em confronto de uns com os outros, em vez da guerra destruidora, exibiam a sua excelência e a força/habilidade dos seus homens (os atletas). Mas, para espanto de alguns mais ignaros, estas são realizadas em festivais religiosos. Sem dúvida que os mais famosos são os Jogos Olímpicos, realizados em Olímpia, povoada desde o segundo milénio a.C. Situada nas margens do Alfeu e do Cladeu, nesta planície encontrava-se o Santuário de Zeus, de grande veneração entre os gregos (mesmo sabendo que primitivamente coexistiu o culto de Cronos e de Urânia). Este santuário distinguia-se por dois lugares únicos, a palestra e o ginásio.

A sua criação é atribuída a Efitos, que propõe a Licurgo, Rei de Esparta, um acordo de Paz com o objetivo de poupar Olímpia da guerra – em vez da guerra, vamos jogar… Os primeiros jogos são de 779 a.C., realizados em Olímpia, entre Julho e Agosto; mesmo sabendo que hoje os historiadores propõem outras datas que, em rigor, rondam esta proximidade. Meses antes os embaixadores anunciavam a trégua sagrada pelas cidades-estado, que se repetiam de quatro em quatro anos. Duravam um dia e mais tarde cinco dias. A lenda apresenta Héracles como seu fundador e Pélops seu primeiro vencedor. O disco sagrado de Efitos presidia aos jogos (hoje os cinco aros concêntricos), que só os homens livres e filhos legítimos, que não fossem assassinos, saqueadores de templos, nem quebrado tréguas sagradas ou utilizado fraude e suborno, podiam competir, buscando a perfeição do corpo e do espírito. Interdito aos bárbaros, mas para as mulheres virgens da Élide chegaram a organizar jogos, os Heraia (em honra da deusa Hera). Juram, diante do altar de Zeus, estendendo a mão direita, respeitar os regulamentos, que nunca cometeram adultério e competir com lealdade. Acendiam uma tocha, chama sagrada, que o atleta escolhido recebia do sacerdote e a transportava até ao altar de Zeus. (continua…)