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“Meu senhor, deixe-me entrar consigo”

Carlos Rui Abreu
\ sexta-feira, abril 16, 2021
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Ainda sou do tempo em que muitas crianças se juntavam à porta dos campos de futebol à procura de um adulto que lhes apadrinhasse a entrada.

Era o tempo em que nos estádios não havia lugares marcados e um simples - “meu senhor, deixe-me entrar consigo” – valia a permissão do fiscal para, de mão dada com um adulto, muitas vezes desconhecido, entrar naquele espaço mágico que é o campo da bola.

Hoje tudo mudou! A sociedade evoluiu.

Já não há tantas crianças ao ‘Deus dará’ a vaguear pelas ruas, seduzidas por um jogo de futebol nas tardes domingueiras. As que vão agora são levadas pelos pais, avós, irmãos mais velhos, enfim, têm um ‘tutor’ que se responsabiliza.

É mesmo por aqui que quero entrar nesta reflexão. Recuo no texto e volto a socorrer-me da frase: ‘a sociedade evoluiu’. É fruto dessa evolução que eu, enquanto pai que adora futebol, não quero que o meu filho perceba o que era o futebol do passado. Os maus comportamentos, exemplos nefastos para o desportivismo, a agressão física ou verbal só porque o adepto ao meu lado não pensa como eu, porque o árbitro se equivocou aqui ou ali.

Mas será esse o futebol do passado? Há alturas em que sou levado a pensar que as coisas estão a mudar mas, rapidamente, a cada jornada do futebol luso, perco a vontade – que já quase não existe – de incentivar o meu filho a sentar-se no sofá para assistir a uma partida. Não me apetece ter de lhe explicar porque é que o treinador da equipa A sai disparado em direção ao treinador da equipa B soltando impropérios, quase chegando à agressão física; não me apetece explicar porque é que no momento efusivo de festejo de um golo, um treinador faz gestos obscenos de forma reiterada; não me apetece explicar o teor de muitas declarações de diversos intervenientes; não me apetece explicar porque é que duas equipas deixam de jogar, a 20 minutos do fim da partida, só porque aquele é o resultado que interessa a ambas e mandam às malvas a verdade desportiva e a ética; não me apetece explicar porque é que quem faz isto não é punido exemplarmente.

Se não são estes valores que lhe tento incutir na vida e na tenra prática desportiva que já tem, porque é que o vou motivar a assistir a um jogo de futebol?

Nesta época em que as crianças estão privadas do ‘jogo jogado’ e se concentram muito no ‘jogo televisionado’ é importante cultivarmos uma atitude desportiva. Não nos podemos esquecer que estamos a formar os intérpretes do futuro. 

A responsabilidade é de todos nós.