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O sorriso de Chiellini

Raquel Veiga
\ segunda-feira, julho 19, 2021
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O EURO2020 foi a competição que nos deu tudo. Por isso, mais de uma semana depois de chegar ao fim, ainda faz sentido prestar tributo àquele que foi um dos melhores torneios de seleções de sempre.

Quando, no dia 11 de junho, o Chiellini deixou escapar um sorriso ao som dos primeiros acordes do Fratelli d’Italia, que tocava nas colunas do Stadio Olimpico di Roma, não sabíamos ainda o mês de futebol que tínhamos pela frente. Em retrospetiva, ele parecia saber mais do que nós com aquele sorriso que tinha tanto de tranquilizador como de presunçoso. Um sorriso que involuntariamente imitei em casa. Apesar de tudo o que se estava a passar no mundo – e nos últimos 18 meses passaram-se muitas coisas –, estava prestes a começar uma maratona futebolística com público nas bancadas. Um senso de normalidade, de que precisávamos desesperadamente, entrou nas nossas vidas.

Essas eram as boas notícias, mas havia razões de sobra para desconfiar deste torneio. Adiado um ano, em consequência da pandemia, o EURO2020 aconteceu depois de uma época atípica que obrigou os jogadores a fazer o habitual número de jogos num período de tempo reduzido. Para além disto, ser uma competição itinerante, com onze cidades-sede, não abonava a seu favor. A verdade é que tinha tudo para não correr bem. Em teoria.

Durante um mês, o EURO2020 deu-nos tudo: as histórias, os vilões e os heróis, os amores e desamores. Vimos comuns mortais a transformarem-se em heróis quando a fragilidade da vida foi evidenciada num campo de futebol. Eriksen e companhia merecem um tributo em nome próprio. Vimos que ninguém é demasiado grande para cair e ninguém é demasiado pequeno para triunfar. É da tenacidade suíça que muitos sonhos se fazem. Vimos que, afinal, ninguém está cansado de ver jogos de 90 minutos. As mais de quatro horas de futebol do mítico dia 28 de junho contrariam os que vaticinam o fim do futebol como o conhecemos. Vimos penaltis falhados e a dor de perder tudo no último minuto. A história da final, com Saka, Sancho e Rashford, dificilmente nos vai sair da memória. E vimos, claro, o renascimento italiano. Esta história começa e acaba obrigatoriamente com la bella Itália, com Roberto Mancini de casaco ao ombro nas entrevistas rápidas e com Jorginho, Donnarumma, Insigne, Chiesa, Chiellini e companhia. Foi a forma mais italiana possível de ganhar uma competição: com carisma e com coração.

Dentro de campo, as histórias multiplicaram-se – e não cheguei a metade –, mas o EURO2020 também aconteceu para lá das quatro linhas: foi um torneio político. Se tudo na vida é política, o futebol não pode deixar de o ser. As demonstrações de apoio à comunidade LGBTQI+ e as manifestações antirracistas – que num momento faziam com que a sociedade mostrasse o seu lado mais solidário para, de seguida, mostrar o seu lado mais hipócrita – são necessárias e podem representar um momento de viragem, primeiro nos estádios e depois na sociedade. O poder que o futebol tem é incalculável.

Não me sobra espaço para enumerar todos os motivos que fizeram desta uma das melhores competições da história do futebol. Está na altura de encaminhar esta crónica para o fim. Para fechar o ciclo, regresso novamente ao sorriso do Chiellini ao som do Fratelli d’Italia. Desta vez em Wembley, no dia 11 de julho, um mês depois do jogo de abertura. Repetiu-se aquele sorriso. Continuava a transparecer a mesma tranquilidade e presunção. Depois de um mês de futebol – e de um inesquecível amor de verão chamado EURO2020 – fazia um bocadinho mais de sentido acreditar no futuro. No meio da incerteza e do caos, há pelo menos uma coisa que permanece imutável: para todos os males do mundo, há o futebol.