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Proibido jogar futebol

Raquel Veiga
\ segunda-feira, junho 21, 2021
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As mulheres foram excluídas do futebol durante muito tempo. Esta também é a história do futebol. Talvez seja o capítulo mais feio de todos, mas precisamos de o conhecer para planear o futuro.

Lembro-me da noite em que vi a Formiga jogar ao vivo pela primeira vez. Com a camisola do Paris Saint-Germain e o número 24 nas costas, percebi que não lhe podiam ter dado outro epíteto: é tão trabalhadora como a formiga da fábula de Esopo. É um fenómeno do futebol e, aos 43 anos, continua a correr mais quilómetros do que as adversárias e a desarmá-las como se a vida dependesse do desfecho de cada lance. O seu nome é sinónimo de longevidade: está a caminho da sétima participação nos Jogos Olímpicos e é a atleta mais velha de sempre a jogar e a marcar na Champions League.

Miraildes Maciel Mota – conhecida por Formiga – nasceu em 1978. Quando nasceu, e por ter nascido mulher no Brasil, a lei proibia-a de jogar futebol. “Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza”, podia ler-se no decreto-lei 3.199 do dia 14 de abril de 1941. As mulheres ficaram à margem da prática, entre outras modalidades como polo aquático, “do futebol, futebol de salão, futebol de praia”. Estas palavras foram suficientes para excluir as mulheres brasileiras do desporto durante 32 anos. O decreto foi revogado em 1979, quando Formiga tinha um ano de idade.

Havia precedentes. Em 1921, na Inglaterra, a FA decidiu que “o jogo de futebol não é adequado para as mulheres e não deve ser incentivado”. Com efeito, as mulheres britânicas foram impedidas de se organizar e de jogar nos campos que estavam sob a sua jurisdição. Esta resolução surgiu numa altura em que as equipas femininas começavam a ganhar notoriedade. No Boxing Day de 1920, um ano antes da histórica decisão, o jogo entre o Dick, Kerr Ladies F.C. – talvez o clube feminino mais popular da história – e o St. Helen’s Ladies levou mais de 53 000 adeptos ao Goodison Park. A interdição vigorou durante 50 anos e só foi abolida em 1971.

No mesmo período, a seleção masculina brasileira sagrou-se tricampeã mundial e a seleção masculina de Inglaterra ganhou o único Mundial do seu palmarés. São as provas de que a história do futebol sempre se escreveu a duas velocidades, dependendo do adjetivo que qualifica a palavra futebol. Para as seleções femininas, o primeiro Campeonato do Mundo aconteceu apenas em 1991. As regras que foram impostas às jogadoras tresandavam à discriminação que tinha marcado as décadas anteriores. Em vez dos 90 minutos, foram impostos jogos de apenas 80. April Heinreichs, capitã estadunidense e vencedora da competição, explicou a razão: “tinham medo de que os nossos ovários caíssem se jogássemos 90 minutos”.

Desde então, o mundo evoluiu, mas não nos podemos esquecer das páginas tristes da história do ludopédio. Agora sabemos que o futebol é para todos os que queiram jogar e que a competição não pode estar vedada às mulheres. No entanto, o estado da arte – que eu me comprometo a explorar numa crónica futura – mostra-nos que o futebol, quando seguido do adjetivo feminino, ainda é menorizado.

Em Portugal, as desigualdades de género no futebol – e no desporto – fazem-se sentir com intensidade. O modelo da primeira divisão – uma competição amadora! –, a proposta de um teto salarial e o cancelamento de provas de elite como a Taça de Portugal são exemplos suficientes para perceber que ainda vivemos com vestígios dos tempos em que excluíram as mulheres do futebol. Não esqueçamos a história para planear o futuro.