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Quis jogar a vida em todos os tabuleiros

Ilda Pereira
\ sexta-feira, maio 21, 2021
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O Desporto, qual meronímia social, acerba costumes, sobreleva o extra-ordinário quotidiano, esclarece as tradicionais práticas institucionalizadas.

“My father could have been a great comedian but he didn't believe that that was possible for him, and so he made a conservative choice. Instead, he got a safe jog as an accountant and when I was 12 years old he was let go from that safe job, and our family had to do whatever we could to survive. I learned many great lessons from my father. Not the least of which was that: You can fail at what you don't want. So you might as well take a chance on doing what you love.” (Jim Carrey)

“My mom always told me that I could be anything I wanted to be. And I truly, actually believed it. And I fought.” (Allen Iverson)

Na verdade, quando eu era uma criança, os meus pais disseram-me que eu podia ser o que eu quisesse. E eu acreditei.

Na realidade, eu poderia ser o que eu quisesse dentro de certos padrões e convenções – para uma filha, uma menina, para uma mulher, uma senhora, uma esposa de “família” e de “classe”.


Quando chegou o Tempo de Jogo, o tempo de ir a jogo, de entrar em campo, primeiro apertei os atacadores das chuteiras (e os meus pais nunca assistiram a um jogo) e, mais tarde, afivelei os sapatos de encaixe.

Quando chegou o tempo de jogar a vida, quis jogá-la em todos os campos, em todos os tabuleiros, sem foras de linha e sem xeque-mate.

O Desporto, qual meronímia social, acerba costumes, sobreleva o extra-ordinário quotidiano, esclarece as tradicionais práticas institucionalizadas.

O Desporto, que fez Sátira da morte livre, é ágio ora que honra ora que desgraça.

E era só isto: dizer que ainda não se cumpriu o Desporto! Que ainda há meninas, mulheres, esposas, mães, que não saem à rua para caminhar com a mesma liberdade com que ele sai!
E era só isto: dizer-vos que quando uma menina quer ser atleta, ainda há quem lhe diga que isso não é profissão (para ela)! Que não garante o pão (para os filhos que virão logo após o casamento)! Primeiro estão eles - os livros, os estudos, os cursos, os cargos, os compromissos, os… os… os…! Primeiro, segundo e em todos os lugares!

Só que não tem de ser assim! Não tem nem pode: é ilegal, inconstitucional!

Só que é assim! Ainda pode ser assim: o país dos velhos costumes, do sacudir de ombros, ainda ri a cada “mulher ao volante, perigo constante”, a cada “o único motor que a minha mulher domina é o da varinha mágica”, a cada “lugar de mulher é na cozinha”.

O riso nem sempre é o melhor remédio. No que toca à Equidade, à concretização das diretrizes Universais dos Direitos, à implementação das orientações das diversas Instituições e Órgãos Reguladores, o riso é uma rasteira, uma falsa partida, uma braçada frouxa, um lançamento falhado, um pé em risco, um KO para todos os que estão em pista, em campo, em Tempo de Jogo a fazer do Desporto a mais bela esfera armilar da humanidade!

O riso não é sorriso nem é felicidade. Será que vai rir quando aquela mulher é a sua filha, a sua neta, a sua melhor amiga? O que é que tu lhe vais dizer que ela pode ser? O que é que vais fazer para que isso possa acontecer?
É Tempo de ir a Jogo!