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Reformar ou morrer

Raquel Veiga
\ segunda-feira, abril 26, 2021
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Criado pelos pobres, roubado pelos ricos, talvez salvo pelo povo: as 48 horas sísmicas do futebol têm de nos fazer repensar um modelo que já estava doente.

Nasceu o futebol menos popular de sempre. O dia 18 de abril de 2021, quando foi anunciada a criação da Superliga Europeia, pode constar da certidão de nascimento. A ideia de uma competição elitista e fechada, com o objetivo de gerar receitas astronómicas, não é novidade. A discussão dura há anos, mas só agora abandonou o plano da ficção para se materializar num projeto concreto, ainda que muito mal preparado. O delírio coletivo dos super-ricos durou pouco e tudo se desmoronou em 48 horas. No entanto, a pior coisa que pode acontecer ao futebol é acharmos que a ganância e a manipulação da verdade desportiva foram derrotadas. Não foram.

Nenhuma ideia cresce no vácuo e foram muitas as sementes que, em terreno fértil, fizeram com que esta ideia se desenvolvesse. Tivemos indícios suficientes para perceber que uma competição como esta era (e ainda é) inevitável: a criação da Premier League em 1992; a Lei Bosman de 1995; a requalificação da cidade desportiva do Real Madrid em 2000; a compra do Chelsea em 2003; a do Manchester City em 2008 e posterior criação do City Football Group; e a compra do Paris Saint-German pela Qatar Sports Investment em 2012.

Por escassez de tempo e espaço, faltam eventos nesta cronologia que ajudam a explicar a transformação que, nas últimas décadas, acometeu o futebol e o adoeceu ao ponto de (quase) derrubar os pilares que achávamos serem de cimento: a competição, o mérito e a imprevisibilidade. Restringi-me, por isso, aos momentos mais marcantes dos últimos anos. Todos têm um denominador comum: foram permitidos pela UEFA e pela FIFA.

Os dois órgãos máximos responsáveis pelo futebol, que agora parecem querer pôr-se em bicos de pés para ficar do lado certo da história, foram incapazes de controlar o fluxo e a origem do capital privado que inundou o futebol e foram (são!) incapazes de salvaguardar o interesse dos clubes e da modalidade. A nova reforma da Champions League – que vai aumentar o número de jogos para cada equipa – só fica bem se for em comparação com a Superliga. No fundo, a intenção de uma e de outra não estão tão distantes como querem fazer parecer. O futebol não estava bem nem saudável antes de a Superliga aparecer.

Florentino Pérez, presidente do Real Madrid e prógono do projeto, disse que a proposta surge para salvar o futebol. “Reformar ou morrer”, nas suas palavras. Eu concordo: reformar ou morrer, mas não assim. Precisamos de inverter a ideia para reformar o defeituoso futebol atual. Precisamos de fazer crescer e desenvolver o futebol popular e os clubes locais; lutar pelos movimentos associativos; passar o controlo dos clubes para as mãos dos sócios e adotar a regra alemã dos 50%+1; garantir que nenhum clube é demasiado grande para cair e para perder; e fazer com que a arte do imprevisível nunca seja dominada.

Não quero ver o meu clube perder em nenhuma circunstância, mas quero que o meu clube perca. Não é um paradoxo. Perder faz e tem de continuar a fazer parte do futebol. É preciso perder com os que parecem mais pequenos para que, na jornada seguinte, se possa ganhar aos super-ricos e aos superpoderosos. É esta a arte do imprevisível que nos fez apaixonar pelo futebol. Cabe-nos a nós, adeptos, defendê-la.