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Tens razão, Hayes: temos de exigir mais

Raquel Veiga
\ segunda-feira, setembro 13, 2021
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Em 2021/2022, quatro equipas vimaranenses vão estar a competir nos três primeiros escalões da pirâmide do futebol feminino nacional.

Depois de olharmos para o passado, chegou o momento de questionarmos o presente e decidirmos o futuro. Já sabemos o que queremos para o futebol?

O relógio indicava que o jogo estava a chegar ao minuto 60. O primeiro derby londrino do campeonato, destaque do cartaz na primeira jornada da Women’s Super League, estava a ser favorável ao Arsenal, equipa da casa, que por essa altura se sobrepunha ao Chelsea por 2-1. As Gunners fizeram nova incursão à baliza adversária: a japonesa Iwabuchi deixou a bola a jeito para Beth Mead passar pela guarda-redes do Chelsea, Ann-Katrin Berger, e fazer o terceiro da noite. A equipa de arbitragem não notou, mas a inglesa estava em posição irregular. O golo, que foi erradamente validado, deu os três pontos à equipa do norte de Londres e foi o pretexto ideal para Emma Hayes, líder Blue, vincar a sua posição.

A treinadora do Chelsea, a cumprir naquele dia o 250.º jogo ao serviço do clube num percurso que não tem sido nada menos do que genial, deixou uma mensagem clara: devemos exigir mais para o futebol. No entender da inglesa, não ter VAR e tecnologia da linha de golo na divisão máxima de futebol feminino do país faz com que as jogadoras – mas não só – se sintam “cidadãs de segunda categoria”. Acrescentou ainda que “devemos exigir mais; não devemos aceitar padrões mais baixos para o futebol feminino”.

A história da primeira jornada da Women’s Super League, disputada no primeiro fim-de-semana de setembro, serve de contexto antes de mudarmos de latitude e regressarmos a Portugal. Foi também no primeiro fim-de-semana de setembro que começou a ser discutida a Liga BPI. Ainda antes do final do mês vai soar o apito inicial para lançar o Campeonato Nacional da II Divisão Feminino. De entre as 20 equipas que vão entrar em competição, há uma vimaranense: o Vitória Sport Clube. No Campeonato Nacional da III Divisão Feminino, que tem início agendado para 10 de outubro, há mais três emblemas de Guimarães: Brito Sport Clube, Grupo Cultural e Desportivo Águias Negras e União Desportiva de Polvoreira. Com o reinício das competições, chega também o momento – necessário todas as épocas – de olhar para o estado da arte no futebol feminino em Portugal, saber o que se passa para além das fronteiras e perceber qual é o caminho que queremos seguir.

Em Espanha, a época que agora se inicia é histórica: a primeira e a segunda divisões de futebol feminino são, enfim, profissionais. Em Inglaterra também se fez o que nunca tinha sido feito antes: a Women’s Super League centralizou a venda dos direitos de transmissão e assinou um acordo inédito com a BBC e a Sky Sports cifrado nos 24 milhões de libras. Também há novidades em Portugal para 2021/2022: todos os jogos da presente edição da Liga BPI vão contar com transmissão televisiva. É um passo de gigante num campeonato que está a aprender a caminhar, ainda incerto do caminho que vai tomar. A exposição gera interesse e novas oportunidades, mas também se traduz num escrutínio redobrado. Aprender a lidar com as críticas e com os comentários que inevitavelmente vão surgir vai ser um dos desafios – necessários – da temporada.

No entanto, continua a ser evidente que o futebol feminino – não só em Portugal, mas no mundo - é considerado um desporto secundário e distinto daquele que é entendido como o futebol de verdade. Em 2020, em contexto pandémico, a Federação Portuguesa de Futebol apresentou um plano para relançar o futebol feminino e tomou a decisão de alargar o número de participantes na Liga BPI: os 12 iniciais deram lugar aos atuais 20 emblemas. Com a justificação de apoiar mais clubes e mais jogadoras, dividiu-se um campeonato de elite – ou assim deve ser o principal escalão de futebol feminino – em duas séries, modelo que só faz sentido ser adotado para competições secundárias ou de formação. O formato mantém-se inalterado para 2021/2022. No mesmo ano de 2020 houve uma tentativa de instaurar um teto salarial exclusivo apenas para o campeonato máximo feminino. A proposta foi abandonada depois dos muitos protestos de jogadoras, mas ainda assim é exemplificativa das ideias que norteiam a modalidade. Entretanto, a Liga BPI continua a não ser um campeonato profissional ou uma prova que dá indícios de caminhar nesse sentido.

O investimento da maioria dos clubes nas suas equipas femininas continua a ser marginal e continuam a ser apresentadas (e vistas) como equipas menores dentro das próprias estruturas. A norma não é dar a conhecer as equipas como a masculina e a feminina, mas como a principal e a feminina. Acresce ainda que a atenção que a comunicação social nacional dá ao desporto feminino foi e continua a ser deficitária. Um estudo conduzido pela Universidade de Coimbra concluiu que, num período de 20 anos (entre 1996 e 2016), o desporto feminino foi protagonista de apenas 14% das notícias desportivas.

Emma Hayes tem razão. Devemos exigir mais e não devemos aceitar padrões mais baixos para o futebol somente por ser praticado por mulheres. Devemos exigir mais profissionalismo e empenho das jogadoras, das treinadoras, dos treinadores e das equipas técnicas. Devemos exigir mais investimento e divulgação dos clubes, especialmente aos nossos. Devemos exigir mais seriedade e competência dos órgãos que têm poder e regulam o futebol; devemos exigir que campeonatos de elite femininos tenham as condições que se exigem aos campeonatos de elite masculinos. Devemos exigir mais atenção da comunicação social, seja local ou nacional, até que a cobertura do desporto feminino não seja deficitária. Devemos exigir mais e devemos saber o que queremos exigir. Com efeito, precisamos de conhecer e interpretar a realidade com sentido crítico. É com exigência – e menos paternalismo – que o futebol (feminino e masculino) vai evoluir.