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Três documentos/momentos… (continuação)

Francisco Oliveira
\ sexta-feira, junho 24, 2022
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Urge uma reforma segundo alguns princípios que relevam o ideal do desporto como amadorismo.

No primeiro capítulo deste essencial documento de 1964 – Manifesto sobre o Desporto – começa por propor o desporto como parte integrante da educação, e realça a atividade física na educação dos jovens nas escolas. “O desporto contribui para o desenvolvimento físico harmonioso da criança, prepara-a fisiologicamente para o esforço, auxilia o seu equilíbrio físico e psíquico, participa na formação da sua vontade, do seu caráter, e favorece a sua adaptabilidade social”. Nestas palavras do primeiro parágrafo, deste primeiro capítulo, tudo se diz sobre a relevância do jogo/desporto na formação física, mental e social das novas gerações, quer no lazer, quer trabalho. Começando por realçar a atividade física, não deixa de a distinguir do desporto; aconselhando a ter em contra a idade, o sexo e as eventuais inaptidões. Bem como a importância do acompanhamento médico. Sempre ter como preocupação primeira o bem do praticante e não os resultados, logo, é preciso “fazer praticar atividades adaptadas e suscetíveis de interessar diretamente os alunos”. Por isso mesmo devem privilegiar “as atividades que podem continuar a ser praticadas toda a vida, (e que devem merecer) um interesse particular”. A família pode e deve estar dentro desta prática, e os grupos desportivos podem ajudar a encontrar este equilíbrio entre o tempo de iniciação e o tempo de iniciativa, e o trabalho dirigido e o trabalho pessoal. “A educação desportiva, na medida do possível, deve ser harmoniosamente diversificada”. Sempre a importância do fair play, ou seja, “pelo respeito total e leal das regras e pela completa aceitação das decisões dos árbitros”. Uma justa conceção do fair play conduz a um verdadeiro/a desportista. O treino de um desporto apto, o alcance de um elevado nível, e até uma prática fora da escola, deve ser promovida. Mas sempre considerando que é “da própria criança que deve vir o desejo de intensificar”. E mais ainda – e que atualidade tem esta afirmação –, “nunca devem incitar a criança, mesmo a que é muito dotada, a fazer do desporto mais do que ela o deseja ou à custa do seu futuro”. Este primeiro capítulo termina como a demonstração de que a prática do desporto não contradiz, mas caso contrário, favorece o trabalho intelectual: que os “professores de educação física ensina disciplina intelectual e professores de disciplinas intelectuais ensinam desportos”.

O desporto nos tempos livres/descanso, que se desenvolve no segundo capítulo, procura mostrar como o jogo/desporto favorece uma civilização que se preocupa com a qualidade da vida das pessoas e das sociedades. E sobretudo compreendendo que as condições de vida e de trabalho se alteraram em cidades cada vez maiores. A especialização laboral e a redução de horários laborais potenciaram, e potencia, o tempo de lazer, e estes tempos livres acarretam novas possibilidades, que – segundo este documento – “diminuindo paralelamente a possibilidade de exercer responsabilidades e de se realizar através delas, dão um caráter específico aos problemas do descanso que se põem à sociedade”. Releva-se, assim, o papel do desporto para o desenvolvimento da personalidade dos indivíduos e da coletividade. Desde organizações juvenis, como clubes e associações culturais e desportivas, têm proporcionado os meios necessários para a busca do equilíbrio saudável dos indivíduos e das sociedades em que habitam. É precisamente aqui que as atividades físicas recebem um interesse particular e acutilante “da profunda riqueza do desporto no aspeto humano. // (…). (E) velar pelo respeito absoluto do espírito que dá as atividades desportivas a sua nobreza e o seu valor moral”. Imaginemos agora a proposta de 4 dias de trabalho, que novas necessidades trarão à pessoa humana e à sociedade!? Que papel relevante, ou não, terá o jogo/desporto em tantos dias de lazer e descanso?

E, de seguida, o documento apresenta o que é o espírito desportivo e equipamento necessário para o alcance efetivo da mais valia do jogo/desporto. Mais uma vez o fair play é o espírito desportivo, isto é, “o respeito leal da regra escrita e não escrita” com o adversário, com o arbitro e a generosidade durante a prática desportiva. E, de sobremaneira, no tempo livre e de lazer. Mas o fair play não pode ser considerado um elemento base do fenómeno desportivo. Pois exige uma educação para o amadorismo, isto é, “o estado de alma do atleta que pratica desporto de maneira desinteressada, só pelo prazer da luta, só pela alegria da vitória”. O objetivo é que é sempre o mesmo: o jogo, o bem-estar que resulta do esforço, o progresso pessoal. Bem como a gratuitidade, a diversão e o aperfeiçoamento. Para o documento esta é “a sua melhor forma”. E de seguida apresenta a estrita necessidade de equipamentos necessários e apropriados para a prática desportiva. Se a iniciativa individual e privada o pode fazer, cabe de sobremaneira “aos poderes públicos, às coletividades locais e às grandes organizações particulares”. Este investimento é sempre um investimento social inteligente em favor da comunidade. E estes devem ter em conta o descanso quotidiano, semanal e anual, valorizando os desportos ao ar livre, mas igualmente em espaços fechados. Mas mesmo aqui é necessário a presença de um quadro especializado para organizar e dirigir, e que os monitores tenham una verdadeira vocação e devida formação, tendo sempre em conta que é o “clima de alegria e liberdade que dá, enfim, ao desporto, o seu caráter de descanso”. Cultiva-se, assim, pelo jogo/desporto, uma atitude contra o sedentarismo e a passividade de consumidores dos tempos hodiernos. Propõe mesmo a “profissão de animador do descanso ativo”.

O 3º e último capítulo, intitulado O Desporto de Alta Competição, como Promoção do Campeão, é o eclodir da premente necessidade de bonificar os que se esforçam para além do amadorismo, sem serem, ou pretenderem ser, profissionais de desporto. Perceber esta realidade, reforçando os valores que o desporto promove, sem pôr em risco o amadorismo da grande maioria dos praticantes das diversas modalidades, mas reforçando a sua “promoção social, e, por vezes, um fator da sua promoção profissional”. Este é um dilema que em meados dos anos sessenta do século XX preocupava os responsáveis e promotores do jogo/desporto. A alta competição que o pós-guerra trouxe ao desporto, com mais treinos e mais exigência, mais deslocações e mais tempo despendido para a prática do desporto, leva o documento a concluir que “hoje já não é praticamente possível a um atleta atingir o máximo, (e) ter um emprego que lhe ocupe o dia todo”. Aquilo que era a pretensão do autor (segundo a minha ótica) era manter o atleta como amador (que impõe um desinteresse total) e impedir que se tornasse um profissional (isto é, que fazem do desporto uma profissão). Por sua vez, o documento entende que o profissionalismo “está reservado a uma minoria excecional”. Mas, como uma incapacidade de bem resolver a questão, apelida este (na perspetiva do atleta) de um “dilema calamitoso no qual está encerrado”. Logo, é injusta a regulamentação à altura existente, e promotora da violação pela mentira e pela fraude do ideal do desporto, que se deve revestir de lealdade e de verdade. Consequentemente, desacreditando o desporto e a sua mais-valia para as novas gerações.

Urge uma reforma segundo alguns princípios que relevam o ideal do desporto como amadorismo, e para isso:

  1. “criar simultaneamente as condições necessárias ao mais completo desenvolvimento desportivo do atleta e fazer nascer nos dirigentes a preocupação do futuro social do campeão”;
  2. “parece indispensável reconhecer a legitimidade de uma ajuda material ao campeão. A justiça social e o realismo exigem-no”;
  3. “os dirigentes devem certamente ajudar o atleta a triunfar na sua vida de campeão, mas têm também o dever de o ajudar a triunfar na sua vida de homem. É um princípio essencial”.

Estes princípios irão fazer prevalecer o amadorismo, sem prejudicar a vida do atleta de alta competição (campeão) e sem pôr em causa o espírito desportivo na sua verdade e no seu fair play. A solução, segundo estes princípios, que o documento propõe é a criação de uma “nova categoria de atletas, os «não-amadores», que teriam o direito de tirar proveito do seu talento desportivo, mas que teriam também a obrigação de aprender ou exercer um ofício, aparece(ndo) como um meio de restabelecer a honestidade do desporto, sem sacrificar para tanto a qualidade humana e desportiva de campeão”. Nesta altura, mais que um complexo contra a profissionalização dos atletas, pretendesse a defesa do espírito desportivo e a luta contra o falso amadorismo. E, simultaneamente, a promoção da alta competição ou campeão. E sempre o reforço do que parece ser o mote deste documento – “O «fair play» dá ao desporto a sua qualidade humana. Tudo deve ser posto em marcha para que se torne o ideal de todos os desportistas”. Enfim, e concluindo, esta é uma atividade complexa, mas sempre um todo, em tempos novos (como pretendia o documento demonstrar) e em todas “as formas de que se reveste merecem ser encorajadas” – na escola, no descanso e na grande competição. Sempre promovendo o espírito desportivo, a justiça social e a promoção humana. E nunca permitir que se transforme num “espetáculo deplorável”.