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Vitória SC – 100 anos de História – VIII – Treinadores

Alberto de Castro Abreu
\ sexta-feira, agosto 26, 2022
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É chegado o momento de recordar alguns dos técnicos que orientaram a equipa principal vitoriana aos longo dos seus 100 anos de história.

Neste aspecto, a equipa do Vitória sempre foi orientada por renomados e consagrados treinadores de futebol, os quais, entre dezenas de portugueses, se destacam, também, os técnicos estrangeiros, alguns oriundos da América do Sul, como os brasileiros, Paulo Autuori e René Simões, os argentinos, como José Valle e Mário Imbelloni, e os uruguaios Humberto Buchelli e Pedro Rocha.

E, ainda, do continente europeu, como o francês Jean Luciano, o húngaro Janos Biri, o belga Raymond Goethals, o inglês Randolph Galloway, o austríaco Hermann Stessl, ou Zoran Filipovic, originário da antiga Jugoslávia.

Claro que, entre os portugueses, serviram o Vitória vários nomes não menos emblemáticos como é o caso de Fernando Vaz, Augusto Inácio, Fernando Caiado, Manuel Machado, Quinito, Pedro Martins, José Maria Pedroto, João Alves, Luís Castro, Manuel José, António Morais e Juca, entre muitos outros.

Estevão Puskas, Alberto Augusto, Fernando Vaz e Randolph Galloway.

Estevão Puskas, Alberto Augusto, Fernando Vaz e Randolph Galloway.

 

Obviamente que, entre tantos, é comum salientarem-se, sobretudo, o português Rui Vitória, o treinador que conquistou a Taça de Portugal na temporada de 2012/2013, e o brasileiro Geninho, técnico que comandou a equipa vitoriana à conquista da Supertaça Cândido de Oliveira, edição referente à época de 1987/88.

Ou, então, os treinadores que obtiveram as melhores classificações no principal campeonato português, como os brasileiros Jorge Vieira e Marinho Peres, nas temporadas de 1968/69 e 1986/87, respectivamente, e os portugueses Jaime Pacheco e Manuel Cajuda, nas épocas de 1997/98 e 2007/08.

E, nos tempos, ainda, mais idos, o húngaro Estevão Puskas, técnico da conquista do primeiro Campeonato Distrital da A.F. de Braga, em 1933/34, e, evidentemente, o português Alberto Augusto, o treinador que catapultou o Vitória para o mais alto patamar do futebol nacional.

Ora, seguindo o critério do último texto publicado sobre os jogadores do Vitória, e, em homenagem a todos os treinadores que passaram pelo clube vimaranense, elegemos, não obstante estarmos cientes da controvérsia que este nome envolve no universo vitoriano, o técnico Mário Wilson, aquele que ainda hoje é o treinador que mais jogos dirigiu a equipa do Vitória no primeiro escalão do futebol português.

Mário Wilson esteve no Vitória durante seis épocas, divididas em dois períodos. Entrou na temporada de 1971/72 e saiu no final da época de 1974/75. Regressou mais tarde, no início da temporada de 1977/78, para terminar, definitivamente, a ligação ao clube vimaranense, de forma abrupta, na ponta final da época de 1978/79.

Durante a passagem de Mário Wilson pelo Vitória, o clube vimaranense alcançou classificações dentro do primeiro terço da tabela classificativa do Campeonato Nacional da 1ª Divisão, repetindo, sucessivamente, o 6.º lugar. Contudo, naquele período, o clube nunca atingiu resultados dignos de grande relevo, não conseguindo alcançar, nomeadamente, qualquer apuramento para as competições internacionais de clubes.

Jorge Vieira, José Valle, Juca e Fernando Caiado.

Jorge Vieira, José Valle, Juca e Fernando Caiado.

 

Quando ingressou no Vitória, em face dos resultados alcançados na sua ainda curta carreira de treinador, Mário Wilson era, já então, considerado um técnico com créditos firmados, culto e sobejamente respeitado, quer pelo seu passado como jogador, quer agora como técnico, no meio futebolístico nacional. No seu trabalho evidenciava-se a capacidade de revolucionar, formar novas equipas e valorizar jovens jogadores.

É com base nesses pressupostos que Mário Wilson é escolhido pela Direção do Vitória para comandar a equipa vimaranense a partir da temporada de 1971/72, para, essencialmente, liderar o projecto de renovação, depois dos enormes sobressaltos vividos na temporada anterior.

A famosa equipa vitoriana da década de 60 tinha chegado ao limite da sua capacidade, fundamentalmente, devido à veterania de alguns dos seus principais elementos, e, por isso, o rejuvenescimento do plantel era uma medida urgente; foi nesse sentido que o Vitória contratou vários jogadores, alguns dos quais se viriam a revelar muito importantes para o futuro do clube vimaranense.

Mário Wilson, Hermann Stessl, Manuel José e Raymond Goethals.

Mário Wilson, Hermann Stessl, Manuel José e Raymond Goethals.

 

Na equipa do Vitória, Mário Wilson implantou um estilo de jogo bem diferente daquele que, anteriormente, reinava no clube. Estabeleceu um esquema táctico bem mais ofensivo, fazendo a equipa jogar em toda a largura do terreno, em passe curto e apoiado, e com constantes incorporações atacantes dos defesas laterais, criando os necessários desequilíbrios ofensivos tão em voga no futebol moderno.

Na primeira passagem pelo Vitória, Mário Wilson teve ainda o mérito de lançar e potenciar na equipa principal alguns dos jovens valores criados no clube, como aconteceu nos casos, bem sucedidos, de Abreu, Ibraim ou Romeu.

Nas três primeiras temporadas da primeira passagem de Mário Wilson pelo Vitória o clube repetiu, satisfatoriamente, o 6.º lugar da classificação geral do Campeonato Nacional da 1.ª Divisão.

Seguiu-se, então, a temporada de 1974/75, aquela que vem a revelar-se, indiscutivelmente, como a melhor época do Vitória durante toda a década de 70, com uma equipa bem reforçada, com a entrada de Rui Rodrigues, Jeremias, Ramalho, Pedrinho, Almiro e Pedroto, que, assim, se juntavam a um leque de grandes futebolistas como Rodrigues, Sousa, Osvaldinho, Alfredo, Custódio Pinto e Jorge Gonçalves, Romeu e Tito, sob a batuta de Mário Wilson.

A Direcção do Vitória, aposta forte na equipa principal apontado como claro objectivo um lugar de acesso às competições internacionais de clubes. E, de facto, a equipa vitoriana realiza um excelente desempenho ao longo da temporada, disputando até à última jornada o 4.º lugar da classificação no Campeonato Nacional da 1.ª Divisão.

O Vitória e o Boavista eram os clubes envolvidos nessa particular disputa e o jogo entre eles na derradeira jornada da competição, decidiria qual dos dois emblemas iria disputar as provas internacionais.

A equipa vimaranense partia para a derradeira jornada com uma vantagem de dois pontos e um empate no jogo decisivo seria suficiente para garantir o 4.º lugar, por seu turno, ao Boavista apenas o triunfo interessava.

Aguardava-se que aquele decisivo jogo, disputado numa tarde do mês de Maio de 1975, fosse uma grande partida de futebol, discutido, incontestavelmente, entre duas excelentes equipas e, supunha-se, talvez, ingenuamente, que a decisão dependeria, unicamente, da prestação dos jogadores do Vitória e do Boavista.

José Maria Pedroto, António Morais, Marinho Peres e Geninho.

José Maria Pedroto, António Morais, Marinho Peres e Geninho.

 

Só que, para arbitrar aquela partida foi nomeado o árbitro António Garrido, para muitos considerado o melhor dos quadros nacionais, e, segundo rezam as crónicas, acabou por ser ele mesmo o grande protagonista do desafio, recheado de casos polémicos e decisões bastante contestadas pelos apaniguados do Vitória.

Após um conjunto de decisões, no mínimo, polémicas de António Garrido, os ânimos do adeptos do Vitória exaltaram-se, exacerbadamente, no decurso do jogo, com ruidosos protestos, derrube parcial das redes de vedação do estádio e ameaças de invasão de campo.

Porém, após o final do jogo, enquanto António Garrido e seus auxiliares eram protegidos pelos jogadores e dirigentes do Vitória, no exterior os acontecimentos agravaram-se. Desde confrontos com a polícia, que foi obrigada a usar as armas, às tentativas de arrombamento de portas, o cerco ao estádio, até ao fogo ateado ao carro novo de António Garrido, o seu famoso Toyota 1.200 vermelho.

Paulo Autuori, Manuel Machado, João Alves e Quinito.

Paulo Autuori, Manuel Machado, João Alves e Quinito.

 

Apenas com a chegada de um conjunto de militares vindos da cidade do Porto, já noite dentro, que reforçaram o policiamento na área envolvente ao estádio, foi possível permitir a saída de António Garrido, que, ainda assim, teve de fazer a viagem no interior de um carro militar.

Voltando a Mário Wilson, no final da época de 1974/75, o Benfica, apesar de se sagrar campeão nacional, não renovou o contrato com o seu então treinador e para a nova temporada decidiu convidar o técnico Mário Wilson.

Após passagens pelo Benfica e pelo Boavista, a Direção do Vitória faz, assim, regressar Mário Wilson para o cargo de treinador da equipa vimaranense no início da temporada de 1977/78.

Nesta época o Vitória realiza um arranque de temporada, verdadeiramente, notável, de tal forma que à 5ª jornada do Campeonato Nacional da 1.ª Divisão, assume a liderança da prova.

Os bons resultados foram mantendo-se até ao final da 1.ª volta da competição, pois, na segunda metade, o Vitória venceu apenas dois jogos, baixando, consideravelmente, o seu desempenho, acumulando uma série de maus resultados, que o levaram, novamente, a classificar-se na 6.ª posição da tabela classificativa do Campeonato Nacional da 1ª Divisão.

A época seguinte de 1978/79 foi recheada de inúmeros acontecimentos negativos que prejudicaram a prestação do clube no Campeonato Nacional da 1ª Divisão e geraram um profundo e insanável conflito entre a Direcção do Vitória e o treinador Mário Wilson.

Mário Wilson, não terminou, sequer, a temporada de 1978/79, pois acabou demitido do cargo de treinador do Vitória. Terminou assim da pior maneira a relação desportiva que Mário Wilson manteve ao longo de muitos anos com o Vitória. O técnico saiu, irremediavelmente, incompatibilizado com os dirigentes vimaranenses e com a sua imagem, profundamente, abalada no seio da massa associativa vitoriana que nutria especial simpatia pelo treinador.

O Vitória não começou da melhor maneira o Campeonato Nacional da 1ª Divisão da época de 1978/79. As exibições da equipa eram pobres e os resultados bastante aquém das aspirações geradas, evidenciados, por exemplo, no facto de até à 8.ª jornada não ter sido marcado qualquer golo fora de casa.

Terminou a 1.ª volta da competição na 7.ª posição, com desempenhos medíocres, fazendo crescer na massa associativa a contestação ao treinador. As críticas dos associados aumentavam de tom sobretudo pelas constantes ausências do treinador nos trabalhos da Selecção Nacional.

Na 2.ª volta, sobretudo pelos desempenhos individuais de alguns jogadores e não tanto pela prestação colectiva, os resultados do Vitória foram melhorando até que alcança a possibilidade de disputar o jogo decisivo para atribuição do 4.º lugar da classificação, em Guimarães, frente ao Braga.

Além de ser contra um eterno rival, este jogo, disputado em Guimarães, decidiria, praticamente, o apuramento de um dos clubes para as provas internacionais, pois, à entrada para este jogo da 27.ª jornada, o Vitória levava um ponto de atraso em relação ao Braga. Uma vitória colocaria a equipa vimaranense à frente e com francas expectativas de atingir o desiderato gizado no início da época.

Para grande desilusão dos adeptos vitorianos, o jogo foi um completo descalabro para a equipa do Vitória, que acabou por ser derrotada por 0-1 e assim perder as hipóteses de alcançar os seus objectivos, vendo o Braga distanciar-se definitivamente.

Perante a grande desilusão e a consumação do descalabro a Direção do Vitória demitiu o treinador Mário Wilson. A partir de então deu-se início a uma intensa guerra de palavras e acusações mútuas entre o treinador e os dirigentes vimaranenses.

Enquanto Mário Wilson assinava contrato com o Benfica para a época de 1979/80, o Vitória realizava, a pedido da Direção, uma célebre e concorrida assembleia-geral onde foi dissecado todo o processo que conduziu à demissão de Mário Wilson. Nessa assembleia-geral, realizada em 7 de Junho de 1979, os associados vitorianos decidiram, por evidente maioria, proibir o regresso do treinador Mário Wilson ao clube, decisão, essa, que nunca mais foi revertida.

Jaime Pacheco, Inácio, Manuel Cajuda e Rui Vitória.

Jaime Pacheco, Inácio, Manuel Cajuda e Rui Vitória.